Chauás 300km
Véspera de prova, sempre complicado. E quando estamos falando de uma prova longa, a coisa fica ainda pior. Muitos detalhes: preparar os equipamentos obrigatórios, as bikes, as caixas com alimento, baixar, imprimir e plotar os mapas, recarregar todas as baterias e verificar se temos pilhas suficientes para todos os equipamentos noturnos, colocar tudo no carro… sem esquecer de beber muita água e se alimentar corretamente.
É a primeira vez que teríamos um apoio… e para nossa alegria, a Telma, também Curupira pirada de sangue, se prontificou a fazer parte dessa aventura… e para isso, mais equipamentos: barraca, material de camping, fogareiro, cadeiras, tenda, lona, lanternas extras…
É a primeira vez que realmente treinamos e nos preparamos para correr, por meses. Tivemos um treinador físico (Décio – D-Run) e uma nutricionista (Dra. Monica) que nos indicaram o caminho para que fosse possível agüentar a corrida até o final. Nos sentiamos preparados. Ao mesmo tempo, este processo todo nos deixou bastante ansiosos com a corrida assim como um grau extra de expectativa.
Na semana da prova, os organizadores sederam ao apelo de atletas e liberaram os mapas para download na quinta feira, e com isso alteraram o check-in e briefing para sábado de manhã em Bertioga, onde seria a largada. A grande maioria dos atletas acabaram indo direto pra Bertioga. Mas como já tinhamos reservas no Hotel de São Luis e a Dri ficaria o final de semana por lá… não tivemos escolha se não ir à São Luis e sair para Bertioga pela manhã. A cidade parecia um deserto, não havia indicação de evento nenhum, ninguém da Chauás, nada. Exceto atletas de uma equipe carioca que resolveram partir na sexta mesmo em direção a Bertioga para evitar o transito do final de semana prolongado. Encontramos Marcia-Chauás no restaurante que disse que não haveria nada ali, tudo seria feito pela manhã em Bertioga… então só restava voltar ao hotel e preparar as mochilas para a primeira parte da prova estimada em 20hs até o primeiro apoio. Tinhamos que ter muita comida e o que fosse necessário para passarmos a primeira noite de prova antes de ver o apoio no PC4. Nossa terceira integrante, Telma, chegou ao hotel por volta de meia noite.
É claro que não havia café da manhã pronto as 6hs… então seguimos direto pro posto para abastecer… e, é claro, que a chave ficou emperrada na tampa do tanque de gasolina do carro…. é claro que o transito na serra de Mogi das Cruzes estava intenso e quase parado… e é claro que depois de momentos de tensão, chegamos no Forte São João quase na hora da largada. Já disse que não gosto de largada??
Um abraço rápido nos Metrilhas, um xixi rápido, um briefing já iniciado… ai que frio na barriga. Quando chegamos, ainda tínhamos que passar protetor solar, escolher os remos (por indicação do experiente Fran, escolhemos remos de pá simples, era o que estávamos “acostumados”, uma vez que nunca havíamos tentado remos de pá dupla em canoa canadense)… no briefing foi avisado que o trekking entre os PCs (postos de controle) 3 e 4 seria difícil, tipo “chauás”…
Telma colocou água nos squeezes extras que estavam nas mochilas e pronto… largada… sem tempo para alongamentos e meditações profundas.
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Para evitar atropelamentos na saída do remo, foi montado um PPO1 (ponto de passagem obrigatória – coord. 0384500/7361500) à 1km da largada, na praia para uma corridinha de aquecimento e show aos banhistas (perdemos um dos squeezes que caiu da mochila). Deve ter sido uma cena engraçada pra quem estava tomando sol na praia, ver um bando de pessoas, ainda sorridentes, em calças compridas, carregadas com coletes, mochilas, remos, capacetes… correr até “logo ali” e voltar pra depois sumir rio acima no PC1/AT1 (área de transição, onde acontece uma troca de modalidade, nesta caso, trekking para remo – coord. 0384500/7361350).
Logo no inicio do remo percebemos nosso erro na escolha dos remos… o remo de pá dupla é muito mais eficiente. Todas as equipes que optaram pela pá dupla, podem até ter tido alguma dificuldade no começo, mas depois de estabilizada, a canoa sumia na nossa frente… até nossos amigos Guilherme e Claudio da equipe Os Montanheiros que tentaram passar por cima de um barco pesqueiro “estacionado” e acabaram virando a canoa passaram por nós no meio do remo por cauda da pá dupla…
Um remo muito prazeroso.. o rio, a nosso favor, não apresentava grandes dificuldades de navegação nem de orientação… Tivemos nesta etapa uma opção de portagem, onde poderíamos optar por cortar um trecho de 3 km do rio, carregando a canoa por quase 400 metros por uma estrada (só quem pesquisou no Google maps sabia dessa estrada). Eu como navegadora, e com um histórico de dores nas costas, optei por continuar pelo rio, mas com isso fomos alcançados pela dupla mista que havia ficado pra trás… infelizmente perdemos tempo com essa decisão, mas ao conversar com outras equipes, parece que ir pelo rio realmente poupou energia, uma vez que a canoa é muito pesada e 400 metros é uma distancia bastante longa para carregá-la.
Remamos por 5 horas até o PC2 / AT2 (remo para trekking – coord. 0392000/7370050)… 5,5hs do inicio da prova… Deixamos a canoa, os remos de pá simples para trás e atravessamos o rio gelado até a margem oposta, um vara mato rápido até a trilha e seguimos para o norte/nordeste pelo vale ao lado do Rio Itapanhaú até cruzá-lo, depois de aproximadamente 5 km para subir a trilha (leste) até a rodovia Mogi-Bertioga, à 340m de altitude.
Chegamos empatados com mais 2 duplas mistas. Era para ser um mirante, mas a noite, todo gato é pardo e toda cachoeira é apenas barulho, barulho este que não dava pra ouvir devido ao transito intenso da descida da serra.
Mais 2 km pelo “acostamento” até a entrada da trilha. Na ponte do Ribeirão Guacá. Uma subidinha básica de 430 a 640 metros de altitude onde supostamente encontraríamos a saída para a trilha principal que nos levaria ao PC4.. no caminho encontramos “pescadores” que voltavam para a rodovia dizendo que já haviam encontrado atletas perdidos nas trilhas perto do “brejeiro” e se caso pretendêssemos seguir, era pra tomar cuidado e não seguir as pegadas de bota, uma vez que não levavam ao caminho correto, e um segundo pescador acrescentou que nem deveríamos continuar. Começamos a caminhar sem muitas dúvidas sobre o caminho. Azimute correto, trilha existente… tudo como deveria ser… até encontramos 8 atletas exaustos voltando na direção oposta! Estavam a horas procurando pela trilha… essa é a hora em que as equipes começam a influenciar todos a sua volta. Escutamos as referências, as reclamações e seguimos nosso rumo, conforme nossa navegação. Uma hora depois desse encontro, a trilha se foi. Sumiu… Escafedeu-se…
Entramos na trilha à 20hs e já eram 2hs da manhã quando sentamos numa pedra na beira do rio. Meu headlamp (lanterna de cabeça) estava com a pilha fraca e eu não tinha reservas (uma vez que achava serem pilhas novas, um erro clássico), meu ânimo estava abalado, estava feliz em estar, mesmo que por um breve momento, fora da mata fechada… Carneiro, mesmo contra a vontade e contra seus princípios, cedeu ao meu apelo e resolvemos esperar o sol nascer para encontrar a bendita continuação da trilha do outro lado do rio.
Durante as horas em que ficamos na pedra, diversas equipes passaram por lá sendo que 2 duplas resolveram ficar por perto para seguimos juntas pela manhã: Os Montanheiros e a Chauá de Curitiba. Carneiro conseguiu dormir uns 40 min e eu, sempre consigo dormir um pouco mais. Só não dormi as 3 horas porque além do frio de rachar, haviam pernilongos e a pedra era muito escorregadia. O sol nasceu e com ele nossa ambição em achar a continuação da trilha.
Nossa estratégia foi seguir pelo rio e suas margens para não perder a entrada do outro lado e talvez reconhecer alguma referência no mapa. Alguns trechos em que o rio estava profundo e havia barrancos muito íngremes nas margens, procurávamos por brechas pela mata nas laterais. Vidinha difícil essa. Não tínhamos certeza se já havíamos passado o local onde deveríamos atravessar o rio ou não… isso deixa a gente meio atordoado, uma vez que não adiantaria varar mato em nenhum azimute porque poderíamos perder a estrada e passar outra noite na mata. Horas foram se passando… as 3 duplas ficando cada vez mais desanimadas. Carneiro e eu resolvemos subir uma montanha para, no topo, comprovar minha suposição quanto a localização. Descemos a montanha pelo vértice e nada de confirmação. Nossa comida estava se esgotando e já estávamos tomando água do rio. Encontramos novamente com o pessoal que resolveu que voltariam para o PC3 desistindo da prova. Ainda lutamos contra essa idéia por mais uma hora até sucumbir…. os Curupiras pagariam pau antes mesmo de encontrar o apoio pela primeira vez, antes mesmo da primeira perna de bike, muito antes do corte que era nossa primeira missão nesta corrida… foi um retorno doloroso e triste até o PC3. Em silêncio chegamos no mirante, que mesmo de dia foi ofuscado pela neblina e chuva fraca… continuamos sem ver a cachoeira.
Se a prova estivesse acabado nesta hora estava tudo bem… mas desistir e voltar para trás pode trazer uma série de problemas, por exemplo avisar a organização e os apoios que se encontravam pra frente..
Outras 11 pessoas também desistiram neste trecho, e antes de chegarmos no PC3, eles fecharam uma van que os levou ou PC4 onde estavam os apoios… perdemos essa carona.
Por um breve e inusitado momento, por volta do meio dia, Christopher da Equipe Chauá conseguiu falar com Lucas da organização para avisar que as 3 duplas estavam de volta e aguardávamos o resgate pelos apoios de deviam ser notificados por rádio no PC4. Nunca mais conseguimos contato com ninguém daquele ponto. Aguardamos até não conseguir mais. O mirante fica ao lado da rodovia e não tem nenhum ponto de abrigo para quem fica por lá. Estávamos com princípio de hipotermia em baixo de chuva e no vento… todo aquele frio da madrugada estava de volta em nossos ossos…
Passaram 2 carros da DER até que eu consegui que um deles parasse no mirante para pedir ajuda. Como são proibidos de dar carona, o resgate foi acionado e fomos todos levados ao pronto socorro de Bertioga. Preocupados com os apoios que ainda não tinham noticias nossas e caso tivessem, procurariam por nós no mirante… ficamos ansiosos por noticias. Fugimos do PS, uma vez que o principio de hipotermia foi 100% amenizado por sairmos da chuva e do vento. Aliás, foi só entrar na ambulância do resgate, que quatro pessoas do nosso grupo já caíram no sono quase imediatamente. Em frente ao PS entramos no restaurante e comemos uma refeição quente enquanto a cada 10min Guilherme tentava entrar em contato com todos da organização, sem sucesso. Todos fora de área. Christopher resolveu ir até a casa onde se hospedou em Bertioga para tentar uma carona até o PC4 para avisar os apoios e por sorte, conseguiu. Chris, Carneiro e eu fomos juntos, uma vez que poderíamos seguir viagem com Telma direto para São Luis e os demais voltariam à Bertioga. 2 horas mais tarde, às 20hs, finalmente, um encontro com nosso apoio!!!
Neste momento ficamos sabendo que Lucas não conseguira passar o recado e nosso apoio ainda não tinha noticias nossas. E 5 minutos antes de chegarmos, eles descobriram um orelhão com o qual conseguiram fazer uma ligação a cobrar para o Guilherme e só assim souberam que já estávamos a caminho de carro.
2 hs da manhã estávamos chegando no Hotel em São Luis onde a Adriana nos aguardava… 20 micuins mais tarde… de banho tomado… fomos dormir. Coloquei despertador para 9h30 porque não queria perder o café da manhã
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Por volta de 16h30 os Irmãos Metrilhas completaram a prova em segundo lugar das duplas masculinas. Parabéns meninos!! Nossos heróis.
Parabéns a todos que completaram essa prova, e encontraram todos os PCs!!!


















